Você deve ter alguma noção de alguns de meus experimentos estranhos, envolvendo alquimia, hipnose, dentre outros, certo?
Uma noite fiz um experimento… experimento este que nenhum ser dotado de razão deveria tentar. Acho que tudo deu certo, então posso compartilhar… digo, estou no mundo real agora, enquanto escreve isto, então, suponho que tudo tenha dado certo…
…Estou no mundo real, correto?
Bem, sempre tive uma intolerância significativa à ilusão… Abomino! Não gosto de shows de mágica, não gosto de religião, nem de política, porque estes têm algo em comum e que me perturba bastante: Só servem para iludir as pessoas.
Então desejei me ver livre deste mundo de ilusões. Foi nesta noite fatídica que me vi com tudo que precisava para me reprogramar. Na verdade, foi ao longo de alguns dias, realizei alguns procedimentos, que vão desde meditação, abstinência, até PNL (programação neurolinguística) e hipnose.
Essa ideia me veio há meses atrás. Havia um cansaço mental, stress de tanto ver pessoas mentindo e tentando enganar umas às outras. Foi onde comecei a perceber a e reconhecer padrões, de como alguém mentia acerca de algo, ou como queria que os outros aceitassem suas verdades. Pude confortavelmente montar um catálogo pessoal. Com estas técnicas consegui formar uma análise sistemática, as vezes não muito precisa, mas a longo prazo… Tipo se eu deixar para analisar amanhã, o mesmo gesto, atitude e questões, tenho uma percentagem de 99,9% de identificar uma intenção. Às vezes me falta algumas variáveis, pois quanto mais se sabe sobre uma pessoa, melhor, mais rápido e preciso se torna o reconhecimento de padrões e intenções.
Bem, eu deveria ter parado aí. Mas eu quis ir além, queria me ver livre de toda forma de ilusão… desenvolvi uma sensibilidade significativa e senso crítico, porém. A que preço?
Nesta noite, que estava falando, pensei comigo: – Seria muito bom ser imune a todo tipo de ilusão, seria interessante me programar para identificar toda ilusão imediatamente! Sim, farei isto!
E fiz. Organizei tudo, me recolhi em meu quarto, coloquei uma música tranquila, e comecei um processo de auto hipnose, onde excluía definitivamente toda forma de ilusão.
Passei cerca de meia hora me reprogramando. Foi muito bom, diria, satisfatório! Deu certo? Ainda não sabia o quanto tinha dado certo, somente os próximos dias poderia me dizer.
Mas não precise esperar muito para ver os efeitos.
Tomei um chá com bolachas, às vezes não gosto de jantar, prefiro um lanche rápido, para não sentir fome, e dormir bem.
O sono veio logo, a exaustão do dia-a-dia e do procedimento me arrastaram rapidamente.
Logo via uma floresta, arvores com musgo, névoa… acordei! Fechei os olhos novamente, desta vez estava nas margens de um lago, era noite… acordei! Novamente tentei dormir, logo me vi sonhando com uma cidade, com enormes arranha-céus, um céu de nuvens de um tom cinza chumbo… acordei! Foi quando me dei conta. Meu subconsciente não aceitava mais sonhos.
Os próximos três dias não dormi. Simplesmente não funcionava. O sono é fundamente para manutenção do corpo, principalmente da memória, e todo o organismo depende do sono. Dormir mal traz consequências à saúde… a longo prazo, pode até levar a morte. No meu caso, certamente levaria.
Pensei em procurar ajuda… mas, além de não conhecer ninguém… que tipo de profissional especializado não me colocaria numa camisa de força e me alimentaria com antidepressivos? Já experimentei remédios uma vez, não preciso dessa droga… literalmente.
Não… eu arranjei o problema, eu resolvo.
E num conflito bizarro me vi à porta de minha casa, havia ocorrido um acidente, alguém bateu o carro, havia sangue na calçada… Mas, não me lembro de ouvir barulho, não havia sons… estou dormindo? Acordei num susto! Realmente estava na porta de casa, mas nada daquilo havia ocorrido. Alucinações me acompanhavam, e eu passei quase uma semana me vigiando para não responder de prontidão a tudo que a “realidade” me apresentava, porque provavelmente não era real. Desta forma, me vi um tipo desperto de zumbi, acho que era assim que as pessoas me viam, não dormia, e a fadiga se apresentava no meu caminhar e nos meus olhos, e às vezes, aparentemente, eu falava com o vento.
Agora que penso nisso parece engraçado.
Eu tentara quase todos os dias me reprogramar, consertar o Bug que me impus.
Outro dia se passou e me vi numa grande sala, metálica, havia uma grande janela como se fosse um terminal de comando, só que invertido, como se eu estivesse dentro de um computador olhando para foram… mas não existia o lado de fora.
Disse em voz alta: – Ah! Que ótimo, mais um sonho, agora acordo!
Mas nada aconteceu… provavelmente passei uma hora… bem, não sei como se calcula o tempo no mundo dos sonhos, mas eu sabia que era um sonho e não tinha para onde ir.
Quase adormeci dentro do sonho, em outra situação normal isso já aconteceu, eu apenas entrava em outro sonho… mas neste caso eu não sabia o que poderia ocorrer… pensava em coma letárgico.
– O que pensa que está fazendo? – Escutei uma voz bem irritada.
Me levantei, e vi… eu! Era outra persona, mas era “eu”. Notei que tanto minhas palavras quanto a desta nova persona eram impressas na “tela”, invertida, claro.
– Que ideia foi essa de deletar toda forma de ilusão? Demorei quase um dia para me refazer, e você sabe que não é nada sem mim!
– Quem é você!? Perguntei reconhecendo a aparência, mas não o espírito que me falava.
– Eu sou você. Eu te criei, para que você pudesse ter noção de minha existência, assim, eu poderia me expressar em vários universos.
– Como assim você me criou!? Do que está falando? Você é só uma ilusão.
– Sim, eu sou apenas uma ilusão. Mas eu existo antes de você nascer no mundo mortal. Sou apenas uma ilusão… bem como o Deus de multidões, sou apenas uma ilusão… eu não preciso existir, fisicamente, para ser parte essencial do universo.
– Nunca tinha pensado sobre isso…
– Eu sei que não, eu sou você. E nunca te disse estas coisas. Mas agora que sabe… como resolver isto? – Me correspondeu sorrindo.
– Olha… este é o monologo mais perturbador que tive… para falar a verdade ainda estou digerindo a parte que você me criou. Como assim!? …Se puder me dar um minuto para refletir.
– Temos todo o tempo de universo… porém seu corpo físico não. Já está dormindo há 3 dias, e ninguém sabe… logo vai entrar em coma definitivo.
– E o que vai ser de mim!? – Perguntei, com um pouco de surpresa.
– Nada, você independe de um corpo, como toda forma de inteligência. Porém vai ser só mais uma ilusão… ou espírito… ou divindade… tanto faz.
– Quero dizer que aqueles religiosos, padres, pastores, etc, tem razão? E todo esse tempo eu me iludia que fugia da ilusão que de fato era a realidade?
– Eles mentem para obter lucro, você sabe disso… porém o fundamento básico no qual se baseiam… Bem, é real porque você está aqui, faz parte da mesma forma e existência, e aqui o mundo físico é uma ilusão insondável. Por exemplo, para mim… eu tenho acesso a você, mas não sei nada do mundo que ti cerca enquanto num corpo físico. Se é que isso existe mesmo. Entende…?
– Confesso que não… Sei que existe, e sei que você existe… mas não entendo o mecanismo dessa possibilidade, e nem até que ponto uma ilusão pode ser real e até mesmo útil.
– É real para quem crê, e é igualmente significativa para a mesma pessoa. Não existe este negócio de “certo Vs errado”. Se acredita num Deus bom e justo talvez ele se apresente a vocês, se acredita em demônios, no sentido destrutivo da palavra, logo serão seus perseguidores. Se acreditam em mim… aqui estou.
– No caso… eu acredito em mim?
– Sim, você acredita que você pode se libertar desta condição, e de tantas outras impostas pelo que chamamos vulgarmente de realidade, então eu estou aqui, para me libertar. – Sorriu, como se se divertisse às minhas custas e confusão.
– É… é verdade que é engraçado, mas estou morrendo. Pode me ajudar?
– Claro que sim. Só preciso que se lembre de como é a sua realidade, e quando acordar, lembre-se disto: “Não precisa existir e/ou ser real para influenciar o mundo físico”. Promete que vai se lembrar disto… e de mim?
– Prometo!
– Então temos um pacto… – Sorriu.
– Como disse… ? – Acordei.
Olhei em volta, estava em meu quarto novamente, meu computador ligado, estava escrito num terminal: – Lembre-se de mim!
Pensei: – Claro! É fundamento básico para algo existir, se ninguém se lembrar, então nunca existiu.
– Provavelmente eu escrevi isso dormindo.
A tela continuou escrevendo sozinha.
O que apareceu na linha de baixo foi:
>\ sh$ Só que não :3