Era um dia como outro qualquer, onde já acordei estressado e cansado, um dia comum mesmo.
Me arrumei, tomei o café da manhã habitual, ovos fritos com algo que chamo de “Ca-fake” (um café descafeinado… é falso), e tomei ele pensando:- Mas tudo é falso mesmo, a sociedade, meu emprego, meu salário, eu mesmo… é todo uma farsa! Porque seria diferente com o café?
Recostando naquela desconfortável cadeira de madeira, pude ver a neblina que me esperava lá fora. E é fácil eu pegar um resfriado, sempre tive saúde frágil. Peguei minha capa de chuva de lona preta, ela já tem uns 15 anos seguramente, já falta pedaços, o zíper mal fecha. Também peguei minha mochila. Ah! A mochila! Eu deveria ter deixado ali em casa. Mas eu sempre levo ela na esperança de ter um tempo para desenhar, sempre carrego um caderno velho e alguns lápis.
Lá fora era uma neblina densa, de cortar com serrote, e a única coisa que me vem à mente é o quanto minha cama estava quentinha. Morrer, seria muito bom morrer.
O trânsito é aquele caos, parece que todo mundo tem os mesmos problemas que eu ou ainda piores, além de tudo, muita gente mal-educada. ...Que tédio!
Chego ao serviço e só preciso fingir um “Bom dia”, tipo um “bonnhg!”, um grunhido, basta falar baixo, ninguém liga. Às vezes alguém responde.
Cheguei em meu posto de trabalho, puxei a cadeira, me sentei mecanicamente, peguei minha mochila e abri.
Que triste cena se desenrolou ali. Meu coração parou por alguns segundos. Congelei, sem reação, pensando naquilo… Meu Deus! Olhei em volto, lentamente, meu pescoço estava travado, quase podia ouvir as engrenagens da coluna rangendo. Aparentemente ninguém viu o que eu vi. Voltei meus olhos lentamente para a mochila.
Ali estava uma pequenina baratinha que tinha saído de dentro da mochila e agora estava no dorso de minha mão direita.
O que eu faço!? Se eu mato todos veriam! Todos saberiam. E se eu não matar…
A baratinha me olhava nos olhos, profundamente me desafiando. Ela podia ler minha mente e meu coração. Estava ali, com seus bigodes avantajados. Só faltava um cachimbo para dizer: - O que vai ser companheiro!? Ou : - Não é você o sabichão da chinela? Faça! Vamos ver se tem coragem!
- Seu novo apelido será Traficante de Baratas, ou quem sabe Joe (do filme Joe e as baratas), ah! Já sei, Luiz o Espalha lixo, do pica-pau. Vamos! Faça!
Recobrei o folego e sacudi a minha mão sussurrando debaixo da mesa: - Fuja! Salve sua vida! - O que vão pensar de mim trazendo baratas para o trabalho!? Horror, medo e insegurança. Será que alguém viu?
Ela se foi. E agora fazia parte do ambiente e eu não tinha mais nada a ver com aquilo. Sou um simples naturalista amante de tooooodos os animais do planeta agora. A parti de hoje.