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Ante ontem faz sete dias que hoje é hoje

desde então, o tempo escorreu pelas frestas do relógio como mel ácido, corroendo as horas que nunca existiram. A cidade inteira passou a andar para trás — mas ninguém percebeu, pois os olhos estavam virados para dentro.
Os postes começaram a conversar entre si em Morse invertido, e um deles revelou o segredo: “Hoje é apenas o eco de um amanhã que desistiu.”
No sétimo dia, que não é dia nem noite, mas uma dobra entre as vontades do universo, os espelhos começaram a refletir o que nunca foi visto.
No mercado, vendiam latas de silêncio em promoção. E as crianças colecionavam minutos em pequenos frascos de vidro, tentando reconstruir a tarde que nunca chegou.
O céu, rasgado por um suspiro, deixou cair uma chuva de ponteiros, horas, minutos e segundos por toda parte. Um velho que cheirava a páginas queimadas dizia que tudo começou quando alguém gritou em voz alta: “Ante ontem faz sete dias que hoje é hoje!!!” — e o tempo, ofendido, resolveu se esconder dentro de um pássaro de chumbo. Agora, toda vez que você tenta lembrar o que estava fazendo, ele pia.

O Pássaro e a Porta
O pássaro de chumbo voa em círculos, preso num teto que não existe. Toda vez que ele pia, um pensamento desaparece, e em seu lugar nasce uma sombra com forma de ninguém. Essas sombras começaram a conversar entre si em línguas com alito de ferrugem. Dizem que conhecem a porta. A porta que só se abre quando você esquece completamente o que estava procurando. Ela apareceu pela primeira vez na parede de um quarto que jamais foi construído. É feita de carne e pregos, e atrás dela está o coração do tempo: pulsante, confuso, batendo para trás. Você está de pé diante dela agora. Seus pés descalços pisam num chão que te reconhece. A maçaneta é o seu nome esquecido.
Você gira. A porta respira.
E então, do outro lado, alguém diz com a sua voz: “Depois de amanhã será o ontem de um dia que nunca veio.”

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